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Viagens |
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Em 2006 resolvi fazer uma viagem ao passado, e reencontrar os bons amigos que deixei na Guiné, durante o serviço militar de 1969/1971 na região do Óio, e numa posterior viagem de trabalho a Bissau, num projecto para o Ministério do Comercio, em 1986. A Guiné tem um calor humano que só ali existe , e que nos cativa de imediato, queria retribuir esse calor, pelo que planei a viagem de modo a que fosse também uma viagem de solidariedade, e ajuda, embora que insignificante. As expectativas eram muitas, reencontrar amigos, lugares, sentir aquele cheiro a mato, e de algum modo reencontrar a juventude, mas sabia também que ia encontrar muitos desafios. Os preparativos para a viagem à Guiné foram um pouco complicados, dado não existirem operadores de viagens, que assegurassem na Guiné os serviços pretendidos, o que me obrigou a contactos directos e a recorrer a particulares.
Bissau 17/11/2006 - Recepção com musica africana à chegada
A chegada a Bissau no dia 17/11/2006 (6ª feira) não podia ter começado de melhor maneira, Carmona Rodrigues presidente da CML e um bispo de uma religião que não consegui identificar, iam no meu avião, pelo que dois grupos de dança, e musica estavam à sua espera no aeroporto.
A minha espera no aeroporto tinha o meu contacto em Bissau, Carlos Lico, que me ajudou com as bagagens, me entregou o jipe que tinha alugado, e me levou numa pequena visita ao centro de Bissau, para comprar um mapa.
Fiquei instalado no excelente Palace Hotel, um novo hotel de 5 estrelas, em que o preço dos quartos standard é de 70.000 CFA, e de um quarto para executivo 90.000 CFA, são semelhantes, mas o quarto de executivo tem mais espaço. Uma refeição aqui ronda os 15.000 CFA, e a cozinha é igualmente excelente. Uma "praga" de grilos resolveu também instalar-se no hotel, e apesar da luta dada pelo pessoal da limpeza, estes continuavam a "dominar" o terreno.
No dia seguinte (sábado), conforme planeado fui de manhã ter com o Pepito, visitamos as instalações da AD no Quelélé, nomeadamente a Escola de Artes e Oficios, e a rádio Quelélé. As ONG como a AD têm hoje um papel importante no desenvolvimento do país.
Bissau 18/11/2006 - AD - Jorge Handem (Jorgito), Director da Escola
Actualmente a Escola de Artes e Ofícios possui cursos na área de informática, electrónica e auxiliares de infância, mas a sua biblioteca e o seu centro de multimédia, são também espaços importantes para a população do Quelélé.
Os cursos de electrónica ("Hardware", "Rádio e Televisão", e "Sistemas de Controlo e Segurança") possuem aqui um programa diferente, pois criam não só técnicos, como lhes dão também as bases para montarem o seu pequeno negócio. O curso custa 15.000 CFA mês (cerca de 20 euros mês), e tem uma duração de 7 meses para a parte básica e 4 meses para a especialização.
Verificamos que tudo estava funcional, para a palestra que eu iria dar no dia 24/11, sobre "A criação de Web Sites", e almoçamos no centro de Bissau, junto aos Serviços Metereológicos, no restaurante Bate Papo, da Maria José, onde comi um excelente gulache.
Em Bissau nota-se muito mais gente, muito mais trânsito e mais comercio, destacam-se algumas melhorias como por exemplo a existência de vários bancos, o novo edifício da Assembleia Nacional Popular, o novo Palace Hotel, as casas com telhados de zinco, e até algumas vivendas de fina construção, outras coisas pioraram como o estado das estradas em Bissau, em que nalgumas ruas os buracos são tantos, que não se consegue fugir deles, existe igualmente mais insegurança devido aos assaltos, outras ainda estão na mesma, como aquele calor humano e simpatia do guineense que nos cativa de imediato.
Bissau 18/11/2006 - Catedral de Bissau
No centro de Bissau na loja "Tribu", fiz algumas compras, a loja pertence a Mariana, uma romena que além desta loja, possui uma fabrica de tecidos tradicionais em Quinhamel, as peças de artesanato aqui são de rara beleza (mas um pouco caras, entre 7.000 e 35.000 CFA), é um lugar que se recomenda para comprar uma prenda especial, contudo é possível comprar mais barato aos comerciantes de rua, nomeadamente junto à Catedral da Igreja Católica de Bissau, os preços rondam entre os 3.000 e os 10.000 CFA, mas são peças diferentes.
À tarde segui para Bissorã, confiando no meu sentido de orientação (pois não existem placas indicativas), e de vez em quando parava e confirmava junto das alguém, que estava mesmo a ir pela estrada certa.
Jolandim 18/11/2006 - Ponte sobre o rio Mansoa
Á saída de Bissau, existe um inexplicável controlo, o qual creio que foi criado na guerra de 1998, e foi ficando sem ninguém saber bem porquê. A estrada alcatroada de Bissau para Bissorã, estava óptima, e com a nova ponte sobre o rio Mansoa em "Jolandim" (João Landim), foi sempre a andar.
A passagem por Bula foi um pouco confusa, pois a estrada estava ocupada pelo comercio, o que obrigou a fazer um pequeno desvio. Não parei em Bula, mas deu para perceber que algumas instalações do antigo quartel ainda estão de pé, mas agora ocupadas como residências.
Parei em Binar, fiz uma breve visita ao antigo quartel, e dei uma bola aos miúdos que por ali andavam, sem saber o que fazer, foi a alegria geral, e minutos depois já decorria um jogo de futebol.
Binar 18/11/2006 - Crianças de Binar com a bola oferecida
Em Binar troquei algumas palavras com Sêco Sidate Seidi, nasceu em 1964, portanto tinha 5 anos quando eu estive em Binar, era filho de Manady Seidi, comerciante que tinha um bar, onde vendia ostras e cervejas aos militares aqui aquartelados, contudo não o conheci durante a minha breve estadia em Binar em 1969.
Seidi mostrou-me a improvisada escola que tinham construído para as crianças, com troncos de árvores e ramos de palmeiras, e pediu-me ajuda para melhorar a escola.
Levei cerca de duas horas a chegar a Bissorã, ali tinha alguns antigos soldados da CCaç. 13 à minha espera, o Domingos Manfande (soldado do 4º pelotão, e meu aluno), Manuel Cuna (soldado do 1º pelotão, e meu aluno), e o Braima Camará (2º pelotão), pois previamente tinha escrito uma carta ao Domingos Manfande a avisar da minha chegada, e a pedir-lhe para me arranjar alojamento em Bissorã.
O Manuel Cuna sempre brincalhão perguntou-se "Quem sou eu?", mas reconheci-o logo, e dei-lhe um abraço sentido a ele, e aos outros.
Bissorã 1970 - Calaboche Tchudá, Carlos Fortunato e Manuel Cuna
Importa aqui dizer que todos nós tínhamos um especial carinho pelo Manuel Cuna, porque quando em Bolama estávamos a registar os recrutas que com que íamos formar a CCaç, 13, não quisemos registar o Manuel, pois calculávamos que este devia ter apenas 14 anos, mas perante a sua insistência de tinha 20 anos (o que nos fez rir), e cativados pelo sua maneira de ser, e bom humor, acabamos por aceitá-lo.
A noticia da minha chegada deve ter corrido Bissorã, pois foram muitos os que me foram visitar, para "dar mantenha" (cumprimentar), deixo aqui o nome de alguns:
- Joaquim Santiago - milícia e irmão de Cabá Santiago, chefe da milícia morto após a independência; - Braima Santiago - irmão mais velho de Cabá Santiago, nunca combateu, nem se envolveu, mas esteve preso durante 2 anos após a independência; - Boré Siga - milicia de Cabá Santiago; - Braima Cissé - milicia, perguntou-me pelo furriel Calé, do 1º pelotão da 1661, que era da 1661, e esteve lá entre 1973 e 74, e pelo furriel Fabião de Coimbra; - Abu Camará - soldado da CCaç. 13, integrou a CCaç. 13 em 1971, no 2º pelotão; - Malan Cambai - milicia desde 1965, no grupo de Quebá Camará, perguntou-me pelo capitão Silveira; - Nuá Xixe - milicia desde 1969, no grupo de Quebá Camará; - Faia Djaló - carpinteiro, e construtor, que gostava de conhecer o pai, o qual segundo a sua mãe Binta Camará, sobrinha do Quebá Camará, era um oficial. Faia pensa que nasceu em 1967, mas não tem a certeza, pode ter sido depois.
Bissorã 22/11/2006 - Abu Camará, Malam Cambai e Nuá Xixe
Uma troca de impressões deu para perceber que os tempos da minha guerra já estavam esquecidos, e que não existia qualquer animosidade entre os combatentes guineenses que estiveram de lados opostos no período de 63 a 74, normalmente denominada pelos guineenses, como a guerra da independência.
Muitas vezes a conversa começava na guerra de independência, mas acaba na guerra de 98 contra as forças senegalesas, penso que essa guerra teve o condão de unir todos os antigos combatentes, pois colocou-os a lutar lado a lado.
O meu amigo Domingos Manfande teve um papel destacado nos combates contra os senegaleses, tendo a seu cargo a defesa do flanco esquerdo, zona onde os senegaleses eram mais fortes. Segundo a suas palavras estes não sabiam combater, "não marcavam distância, não sabiam se pôr-se em posição de disparar, matamos também 2 franceses que estavam lá a combater".
O facto de Domingos durante o tempo em que esteve na CCaç 13, acompanhar os especialistas de armas pesadas, como eu, o Petronilho, etc., tornou-o especialistas de armas pesadas nessa guerra, dando instrução sobre as mesmas e combatendo ao mesmo tempo.
Distribui algumas das coisas que levava, roupas, ferramentas de poda, etc., mas o que mais suscitou interesse foi uma lanterna que funcionava sem pilhas, pois bastava agita-la para a recarregar. Às vezes uma pequena oferta pode ter uma importância muito grande, como o caso do giz que levei para distribuir pelas escolas, pois como calculava existiam quadros para escrever, mas faltava o material.
Bissorã 2006/11/22 - Cama improvisada, onde não falta o indispensável mosquiteiro, apesar de nesta altura do ano, serem raros os mosquitos.
As instalações onde fiquei em Bissorã (casa do Administrador da Região) eram muito precárias, um colchão de espuma no chão a servir de cama, e uma casa de banho comum, onde uma lata num balde com água, servia para tomar banho, tinha contudo algumas grandes vantagens, podia guardar o jipe dentro do pátio interior, e um guarda fazia segurança todas as noites.
Os ladrões armados são um problema na Guiné, a emigração ilegal tem agravado o problema, e com tantas guerras, o acesso às armas não é difícil. Bastou uma noite o guarda não aparecer, o Administrador ter saído, e eu e o Domingos Manfande também termos saído, para os ladrões saltarem o muro, e tentarem roubar os pneus do jipe, valeu-nos a chegada do filho do Administrador, que apesar de ser um miúdo a sua presença, colocou em fuga os ladrões. As faltas do guarda acabaram por me obrigar a mim e ao Domingos, a alguns turnos de "sentinela" durante a noite.
No dia seguinte (domingo) de manhã dei um passeio por Bissorã, são poucas as mudanças, improvisadas bancas de comerciantes proliferam agora no lugar do mercado e no largo principal, a igreja católica é nova (a antiga ruiu),
Bissorã já não tem restaurantes ou outras casas comida, a electricidade existe das 19h00 até cerca das 2h00 da manhã.
Muitas das instalações dos antigos aquartelamentos ainda estão de pé, e os símbolos das companhias que ali estiveram, ainda lá estão, embora um pouco danificados pelo tempo e pelo PAIGC.
O aquartelamento da CCaç. 13, estava agora a ser usado como escola e armazém.
Os monumentos da CCaç. 13 foram destruídos pelo PAIGC, após a independência, deles apenas resta parte de um monumentos em honra aos que tombaram, onde são ainda visíveis os nomes: soldado Homana Iema, soldado Jufali Iala, soldado Mário Gomes, soldado José O. Lopes, carregador nativo Lona Quebu, e soldado da milícia Bitede Bera.
Ao lado do aquartelamento da CCaç 13 fica o pequeno bar do Domingos Manfade, o "Bar Claiefanda" onde a sua mulher Alance vende vinho de cana, mas praticamente não tem movimento, "não há dinheiro" dizem-me, a justificação é que a maior parte das pessoas este ano não quis vender o caju, face ao preço oferecido.
Os monumentos das restantes unidades que passaram por Bissorã, não foram danificados pelo PAIGC, mas o tempo acabou por fazer desaparecer as suas inscrições, as suas casernas são agora armazéns.
A ponte para a outra banda que atravessa o rio Armada, foi melhorada, agora está construída em betão e tem uma protecção lateral em ferro, continua a ser um local muito bonito, era o local onde todos tirávamos uma fotografia, e continua-se a pescar ali, dizem-me que agora é frequente aparecerem hipopótamos naquele local.
À tarde segui pela estrada de Barro, para um terreno que o Domingos Manfande possuí, para lá do rio Blassar, fica a 12 kms de Bissorã. O velho Domingos fazia a pé este caminho para poder ir trabalhar, e acabei por lhe oferecer uma bicicleta no dia da minha partida. A estrada apesar de ser de terra batida estava em bom estado.
A chegada à ponte do rio Blassar, destruída pelo PAIGC durante a guerra, e que ainda não foi reconstruída, lembrou-me outros tempos, os sustos que apanhei com as minas que ali coloquei, as loucuras do padre a agitar um pau no ar, colocando a patrulha em risco, mas são outras histórias que já contei nas crónicas da CCaç. 13.
Segunda feira seguimos até Morés, Eu, Dominfos Manfande, Agostinho Manfande (seu sobrinho, e filho de Armando Manfande um ex-soldado do meu pelotão, e também meu aluno, mas infelizmente já falecido), Clodé Duque, ex- soldado das FAL - Forças Armadas Locais (normalmente designadas por milicias do PAIGC), e Paulo Nugame, ex-soldado do exercito regular do PAIGC, as FARP - Forças Armadas Revolucionárias Populares.
Clodé ingressou nas FAL em 20/12/1967, pertencia à tabanca de Iracunda, e estava integrado num Bigrupo de 60 homens comandados por Bicafrat Nabrama.
Iracunda ficava perto de Morés, Clodé realizou nesta zona muitos combates contra as nossas tropas, e lembra-se claramente do combate que houve em 1971, nos cajueiros do Morés (Operação Safira solitária), embora não tivesse participado nesse combate. Clodé seria o nosso "guia" principal.
Paulo Nugame, pertenceu FARP, mas actuava na zona norte, pertencia à tabanca Ingoré, integrado no grupo de Quecu Tumané, que acompanhava os cubanos que usavam os foguetões de 122mm.
Tendo-me Clodé e Paulo, assegurado que a estrada para o Morés era boa, apesar de ser de terra batida, e que os compradores de castanha de cajú a usavam com camionetas, fiquei descansado.
No Caminho de Bissorã para Mansoa, passamos por Nova Vizela, onde acabamos por encontrar uma criança que precisava de ir ao médico em Mansoa, e apesar do jipe ir cheio, lá "esticamos" o espaço para levar a criança e o pai até Mansoa.
Nova Vizela 20/11/2006 - Do aquartelamento de Nova Vizela, apenas resta o muro que ladeava a sua entrada, mas a placa indicando o local ainda lá está. Na foto Clodé, Fortunato e Paulo.
A estrada Bissorã, Mansoa, Mansabá, estava alcatroada mas em mau estado, contudo a suposta boa estrada de terra batida para o Morés estava em péssimo estado.
Morés 20/11/2006 - Estrada para o Morés, a partir da estrada Mansoa/Mansabá
No Morés já não existiam vestígios nenhuns, do que tinha sido o Quartel General do PAIGC na zona norte, abrigos, ou construções, fomos até aos cajueiros, onde em 1971 houve um violento combate entre o PAIGC, e os Comandos Africanos, e registamos a descrição de um antigo comandante do PAIGC sobre o que se passou na altura.
Aproveitamos para chamar as crianças, e dar mais uma bola, que tínhamos comprado em Mansoa, foi a alegria do costume, e pediram-me também camisolas, não pude satisfazer o seu pedido, embora com muita pena, ao ver as camisolas rotas de alguns deles.
Morés 20/11/2006 - Crianças com a bola oferecida
No Morés indicaram-nos que podíamos seguir por outra estrada para regressar, era uma estrada de terra batida que ia dar directamente a Bissorã, e era boa garantiram-nos, assim fizemos.
A estrada que nos indicaram no Morés era péssima como a anterior, mas a partir de determinado momento começou a estreitar e desapareceu ..., com o jipe entalado entre capim, espinhos e árvores, tive que regressar em marcha atrás, até um desvio que dava para uma aldeia.
Na aldeia quando perguntávamos pelas estradas que deviam existir ali, a resposta foi "Estrada já acabou", na verdade o mato e as culturas da população tinham ocupado esse espaço, e já não existiam essas estradas... os meus "guias" estavam tão perdidos como eu, e nem um antigo mapa que eu tinha descrevendo detalhadamente as estradas e caminhos, servia para nada.
Foi-nos indicado uma nova estrada que seguia para o Olossato, estava boa garantiam, era um grande desvio mas foi por ela que fomos, realmente não estava muito má, até deparar-mos com pontes improvisadas, com troncos cobertos de lama; tinham sido construídas pela população para poderem atravessar os canais que ligavam as várias bolanhas, eram boas pontes para passarem pessoas e animais, mas será que conseguiam aguentar com o peso do jipe... lá as fui avaliando e passando com o máximo cuidado, concluindo que para ali, só de burro, bicicleta ou motorizada.
Maqué 20/11/2006 - Local de paragem obrigatória, para tirar uma foto junto ao seu belíssimo poilão
O Olossato ainda mantinha algumas instalações dos antigos quartéis, mas não paramos e seguimos para Maqué, onde tiramos uma foto junto ao seu belíssimo poilão.
A estrada do Olossato para Bissorã, apesar de ser de terra batida, está em bom estava, pelo que pensamos que todos os problemas tinham acabado, mas foi depois do Maqué, que ficamos atolados na lama, e só com muita insistência e ajuda, e que 11 pessoas a empurrar conseguiram tirar o jipe.
Na terça feira foi o dia da palestra e aula prática na ADPP, sobre "A poda das árvores de fruto". Sala cheia com 20 participantes, que às 9h00 já estavam todos à minha espera apesar do inicio estar marcado para as 9h30, o que demonstra bem o seu empenho, e a sua vontade de aprender.
Bissorã 21/11/2006 - ADPP - Participantes na acção de formação
A ADPP desenvolve a sua acção na área da agricultara, possui uma escola perto de Bissorã, onde forma os novos agricultores.
A ADPP funciona como uma espécie de cooperativa, baseada muito na prática, e explorando algumas áreas agrícolas, é visível a sua dedicação e empenho de todos os que ali trabalham, mas são muitas as suas dificuldades e carências.
No final ofereci alguns livros sobre agricultura para a biblioteca da ADPP, mas senti que tinham ficado coisas em falta, pois apesar de ter confirmado através de um "teste/revisão final" colectivo, de que os conhecimentos dados tinham sido apreendidos, apercebi-me de que não possuíam as ferramentas adequadas, para colocar em prática os ensinamentos que tinha ministrado.
Neste evento conheci uma jovem voluntária da Estónia, Maie Petri, de Parnu, que estava destacada no projecto da ADPP.
Maie tinha dificuldade em comunicar com os agricultores, pois apesar do seu esforço de auto-formação para aprender o português, ainda só comunicava em inglês. Como eu ia visitar algumas explorações agrícolas, para tentar melhora-las, convidei-a a vir comigo, pois poderia ajudar-me, e eu traduziria as suas recomendações na língua local.
Apesar de estar a trabalhar como voluntária para a ADPP, e as explorações que eu ia visitar não estarem ligadas a essa ONG, Maie aceitou depois de ter pedido a autorização aos responsáveis da ADPP.
Bissorã 22/11/2006 - Maie Petri e Livia Pruskova
Além da Maie, estavam em Bissorã no projecto da ADPP mais duas jovens voluntárias, Livia Pruskova da Eslováquia, de Kosice, que era veterinária, e outra jovem vinda da Rússia, a qual não cheguei a conhecer. Não posso deixar de manifestar aqui a minha admiração, por estas jovens, e pelo seu elevado espírito humanitário.
Em Bissorã encontravam-se igualmente dois médicos cubanos, que também tinham chegado à pouco tempo, mas também não consegui ter tempo de falar com eles. O preço de cada consulta era 300 CFA, cerca de 0,5 €.
Bissorã 21/11/2006 - Branquinho
O meu amigo e ex-soldado do 3º pelotão da CCaç. 13, Branquinho, veio fazer-me uma visita, pois tinha vindo trazer à policia de Bissorã, dois ladrões de gado que tinha capturado, aproveitei a oportunidade para ir conhecer a sua tabanca no Encherte, visitar o antigo aquartelamento ai construído pela CCaç. 13, e ao mesmo tempo dar-lhe uma boleia, pois sem outro meio de transporte ia regressar a pé (a pé seriam cerca de 3 horas de caminho).
Em Encherte oferecemos uma bola para as crianças brincarem, e improvisamos uma pequena festa, onde um grupo de dançarinos nos presenteou com uma espectacular exibição.
Para ver um pequeno vídeo, clique aqui
Branquinho é agora o chefe de 17 tabancas, continua a ter aquele carácter, e aquela energia e determinação que eu conheci à 36 anos atrás, não é por acaso que começou por ser chefe de uma tabanca, e depois muitas outras lhe vieram pedir que fosse também o chefe delas.
Quando lhe perguntei se queria enviar alguma mensagem para os antigos camaradas em Portugal, fez apenas um pedido, que alguém financiasse uma escola para as muitas crianças que existiam em Encherte, pois tinham que andar a pé várias horas para conseguirem ir até à escola mais próxima.
Na quarta feira fomos buscar o pai de Alance, mulher de Domingos que estava doente, e de caminho aproveitamos para ir ver o modo como tratavam as explorações agrícolas, e a deslumbrante paisagem de Bráia, junto à ponte junto ao rio Mansoa (lugar situado na estrada entre Bissorã, e Mansoa, sensivelmente a meio caminho).
Bráia é um lugar mágico, em que o branco dos nenufares cobre as calmas águas do rio, e numerosas garças esvoaçam sobre as águas, mas também é um lugar perigoso para quem estiver dentro de água, pois os crocodilos que ali vivem são muitos e grandes, bem como os hipopótamos, os lagartos, etc.
5ª feira foi o dia da visita à tabanca do Manuel Cuna, junto à velha estrada de Bissorã para Biambi (agora desactivada, face à nova estrada alcatroada), a cerca de 5 Kms de distância de Bissorã, foi também o dia das despedidas e do regresso a Bissau.
Finalmente chegou o dia da partida para Lisboa, 6ª feira 24/11, a manhã foi dedicada à palestra "A criação de Web Sites", na Escola de Artes e Ofícios da AD, foi uma secção muito concorrida (28 pessoas), onde se procurou lançar as bases um novo curso sobre a criação de sites na web.
Ofereci algum software e documentação à EAO, para lhe permitir lançar um curso sobre a criação de web sites, mas ficou em falta o software da Microsoft o Front Page 2003, dado estarmos na expectativa de que esta fizesse uma doação à escola, mas tal não se concretizou, estando em curso outras alternativas.
A televisão da Guiné Bissau esteve presente para me fazer uma breve entrevista, a qual foi transmitida no dia 25 de Novembro às 21 horas no Telejornal, na entrevista tentei realçar a importância da formação de técnicos guineenses, e lembrar a amizade que une os muitos portugueses aquela terra, e aquela gente.
No final da minha palestra o meu amigo Pepito, disse algumas palavras de agradecimento, foi-me oferecido um lenço da AD e houve uma breve confraternização, foram momentos que me emocionaram, principalmente pelas palavras de Pepito pessoa pela qual tenho grande estima e consideração, sendo este meu sentimento partilhado por todas as pessoas a quem falei dele, das quais me limito a referir, a de um seu adversário politico, o antigo 1º ministro, e actual presidente do PAIGC, Carlos Gomes Júnior.
Em balanço final, posso dizer que foi uma viagem que ultrapassou todas as minhas expectativas, e que na qual não consegui retribuir devidamente todo o calor humano, e amizade com que me receberam em todo o lado.
Esta viagem confirmou as informações que já tinha sobre a importância das ONG, embora como referi apenas visitei a AD, e a ADPP, e confesso que fiquei impressionado com a dedicação dos seus dirigentes, e o empenho dos seus alunos.
Sem dúvida as ONG são entidades a apoiar e a acarinhar, por quem queira ajudar a Guiné a conseguir dar mais alguns passos no caminho do seu desenvolvimento, para toda a equipa destas organizações os meus parabéns.
Bissau 18/11/2006 - Se tivesse que resumir a viagem a uma foto e a uma frase, esta seria a foto (é uma pessoa desconhecida), e a frase seria "Uma viagem fantástica"
Publicado em 26/12/2006 Crónica de Carlos Fortunato Fotos de Carlos Fortunato
Web portal: http://portalguine.com.sapo.pt
Isabel Niza
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